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domingo, 9 de outubro de 2016

JORNAL O OLHO E A ARTE ITINERANTE DOS PALMARES

LITERATURA INTEGRAL


Alguma vez você parou para ler alguma descrição de paginas no Facebook? E se parou, já encontrou algo parecido com a descrição do Jornal "O OLHO"? Pois é, o nosso amigo Jaorish Telles já falecido deixou essa relíquia de texto para os apaixonados por literatura dinâmica. Veja a descrição na integra. 


OMISSÕES AOS REGISTROS DOS FATOS SÃO PÁGINAS EM BRANCO DA HISTÓRIA.
VAMOS SOCIALIZAR AS INFORMAÇÕES!
ESTE GRUPO DE MENSAGENS É DO JORNAL O OLHO.
ESTÁ ABERTO PARA POSTAGENS DIVERSAS ABORDANDO TEMAS ECLÉTICOS (CRÔNICAS, NOTÍCIAS, AVISOS, COMENTÁRIOS, NOTÍCIAS, FOTOS E VÍDEOS), CONTANTO QUE HAJA RESPEITO E NÃO DESÇA AO BAIXO NÍVEL DE CALÃO OU PORNOGRÁFICO NEM ATAQUEM OS MEMBROS DO GRUPO (POR FAVOR EVITEM ATAQUES PESSOAIS, CALÚNIAS, INJÚRIAS E DIFAMAÇÕES).
NOSSA HISTÓRIA:

Jaorish Gomes Teles

E O GRUCALP SURGIU DE OLHO ABERTO!

O Grupo Cultural dos Palmares (GRUCALP), surgiu e, 1962. Um grupo de jovens intelectuais uniram-se à José Telles da Silva Júnior - Telles Júnior, e à Eliel Soares (na época, organizavam a Revista "A Esfinge", abrangendo artes, filosofia, esoterismo). Esses jovens já se dedicavam à Arte, agindo em teatro, literatura (obras inéditas, e por este motivo, com ânsias para conseguir uma gráfica-editora e fundar um jornal).

O povo palmarense estava mesmo revoltado com os abusos do poder do Promotor Público que usava o AI-5 de todo o jeito, perseguindo cidadãos. Logo após esse incidente com os Membros do GRUCALP, o Promotor foi transferido para outra Cidade. Mas o mal estava feito, os traumas instaurados nas vítimas da brutalidade do Regime.

O REGISTRO DO GRUCALP (essa sigla apareceu em 1969, criada por Eliel Soares da Silva)
Naquele Processo que foi Arquivado após devidas constatações, um dos “crimes” foi Telles Júnior citar a obra “Humilhados e Ofendidos”, do romancista Dostoievski, numa época quando era mal visto quem citasse os russos, mesmos sendo Dostoiévski um Romântico! Era época de gente mesquinha se prevalecer por contatos com militares e por qualquer abuso entregar alguém de bandeja, acusando de subversivo ou de agitador. Época de medos, cuidados para não ser enquadrado no AI-5 e os grucalpenses não pensaram nisso, na ânsia de registrar e denunciar fatos absurdos. Nada além de informar e colocar em ação o dom literário.

E assim Palmares viu militares colocando O OLHO debaixo dos braços, recolhendo O OLHO num Fórum, onde quem deveria estar como processado por desrespeito ao Símbolo Nacional Maior, -que é o nosso Auriverde Pendão, -transgressão dos Direitos das Crianças e Adolescentes e abuso do poder. Ou seja, o próprio Promotor Público que deveria fazer cumprir as Leis e o Respeito e manter a Ordem. Mas era época "de abusos" e extrapolações. Até o Prefeito em gestão na época, Milton D'Emery, do Partido da oposição ao Regime, o MDB, assinou como testemunha contra os artistas, segundo foi visto o documento pelos Membros do GRUCALP lá no DOPS - Recife. Daí em diante, ninguém sabia mais quem era quem, porque o Professor Ivon Ferreira Lins (citado como um grande serviçal do Regime), Dr. Pedro Afonso de Medeiros (foi interventor em Palmares, durante 15 anos, nos anos da Ditadura Vargas)- e o Tenente Coronel Delegado da Cidade dos Palmares, defenderam os jovens escritores!

Outra grande “acusação” era o “Grupo Cultural” não ter Registro, e por este motivo, considerado clandestino. Reuniões clandestinas não eram admitidas pelo Regime! A advogada Elizete preveniu sobre isso, quando houve o recolhimento o Jornal o O OLHO por ordem do Promotor Público. Ela rapidamente queimou todas as provas sobre o surgimento do Grupo Cultural em 1962. Ficava mais complicado ter provas sobre Reuniões antes de 1964 e todo esse tempo sem registros, apenas um livro de Atas e obras literárias arquivadas.

Telles Júnior fez um Estatuto às pressas e com apoio do Advogado Tabelião Rubem de Lima Machado, houve registro e publicação no Diário Oficial. Para não milindrar, a data de fundação do GRUCALP foi registrada como dia 17 de agosto de 1969 (complicaria citação da data ser antes do golpe de 1964 e atrairia investigações; embora tudo surgiu em 1962, e com desaparecimento do Primeiro Livro de Atas, se perderam datas, memória apagada). Mas no texto, a ideologia grucalpense impressa: “concorrer para o desenvolvimento da solidariedade e da boa vontade entre as criaturas... sem distinção de sexo, cor, posição social ou crença... promover o aglutinamento dos jovens no sentido de aproveitar, melhorar e divulgar os elementos intelectuais segundo seus pendores artísticos...”

O Dia 17 de agosto tem algum significado em outro ano anterior a 1969, porém tudo foi perdido em Livros de Atas queimados nas emergências dos fatos de Setembro/69. A Data da 1a Reunião, em 1962, se perdeu no tempo de repetições sobre a data 17 de agosto/69, registrada no Estatuto (como dizia o poeta Waldemar Lopes, “uma mentira muito repetida, se transforma em verdade na História”)... E a repetição sobre o Aniversário do GRUCALP ser dia 17 de agosto e ter fundação em 1969, se tornou uma verdade.

É necessário explanar, registrar os fatos. E após esse episódio grotesco e cruel, a primeira programação pública foi uma Reunião na casa da advogada Elizete Alves, com Telles Júnior proferindo Conferência sobre DIREITOS HUMANOS E CORRETAS RELAÇÕES SOCIAIS. E as Reuniões Públicas do GRUCALP, sempre marcadas em Datas Comemorativas do Calendário Nacional e Mundial, tais como a data da Queda da Bastilha, o Dia Pan-americano, Dia Mundial dos Direitos Humanos, Inconfidência Mineira, Batalha dos Guararapes... E principalmente, cultuando o nome dos Quilombos dos Palmares e do Herói Zumbí dos Palmares, o Patrono do GRUCALP. Todos os grucalpenses sempre foram embevecidos pela bela História dos negros rebeldes do Quilombo dos Palmares. Telles Júnior foi um grande divulgador das causas dos Direitos de Igualdade Racial e do nome de Zumbí dos Palmares. Numa época que ele não era reconhecido como herói Telles dizia que Zumbí era o maior Herói Brasileiro.

Uma das Lutas mais importantes do início do GRUCALP: Nomear a Biblioteca Pública Municipal, homenageando o poeta dramaturgo Profº Fenelon Barreto (tio de Givanilton Barreto Mendes). E os grucalpenses conseguiram levar a Biblioteca para o prédio do Clube Literário dos Palmares que servia apenas de salão de danças administrado por Joel Santana e por Dermeval Miranda. Sendo Biblioteca Pública, o local ficou sob a Direção da Profª Jessiva Sabino de Oliveira, que cuidava do acervo do Clube Literário no prédio do Grupo Escolar José Bezerra. Antes disso, os grucalpenses foram ativos, salvando livros e obras de Arte, quando houve um incêndio criminoso contra o acervo do Clube Literário que estava num salão do Grupo Escolar José Bezerra (tinha arquitetura antiga mas havia interesses de derrubada do prédio e no lugar, construíram a horrível Rodoviária, - atual Rodoviária Municipal, na Rua da Conceição, Centro de Palmares).

SOBRE O GRUCALP: UM DOSSIÊ DE RESISTÊNCIA ARTÍSTICA E CÍVICA!

O Grupo Cultural dos Palmares (GRUCALP) não foi criado nem fundado. Surgiu de aglutinações de jovens ávidos para soerguer o nível cultural da Cidade dos Palmares e fazer uma Rede Cultural com as Cidades circunvizinhas.

Na época, Palmares estava em decadência cultural. O Clube Literário em abandono.
José Telles da Silva Júnior exercia uma magnética atração dos jovens interessados em Arte, Filosofia e Cultura. Muito brincalhão, piadista, conseguiu ter sempre vários jovens por perto. E ao ver esse agrupamento unido, promovendo Palestras, Conferências; fazendo teatro, escrevendo e poetando (sem pretensões de formar uma associação ou entidade cultural), o povo dizia: “é o Grupo Cultural”. No Estatuto, está registrado o ano de 1969, porém a História começa em meados de 1962.
Desde a Década de ’50, o poeta, pintor, escultor e teatrólogo José Telles da Silva Júnior, liderou jovens artistas. O Poeta e Filósofo Eliel Soares, contou como em 1962, Afonso Paulo Lins o levou à casa de Telles: Quando ficou curioso, ao passar defronte a residência do Artista, ouvindo Música Clássica, perguntou, “essa música nessa rua?” E o poeta Afonso Paulo respondeu, “aqui mora um artista esotérico, um astrólogo e intelectual autodidata".

Esse fascínio, principalmente pelo lado místico-filosófico de Telles, era generalizado entre a juventude curiosa para saber mais e mais sobre as misteriosas conversas do Artista.
Dezembro de 1966: Telles Júnior e Eliel Soares publicaram a Revista A ESFINGE, abordando Arte e Filosofia, fortalecendo o Grupo Cultural formado.

Equipe inicial de Sócios Membros do GRUCALP (ditos "fundadores"do GRUCALP) era formada por adultos e por adolescentes: Telles Júnior, Eliel Soares, Iolita Domingos (do Coral da Igreja Batista e Educadora teatreira), Juarez Barbosa Correia (poeta dramaturgo, formou o GETEP – Grupo Estudantil de Teatro dos Palmares), João de Castro Ribeiro (tinha um Grupo de Teatro no Bairro de Santo Luzia), Givanilton Mendes Barreto (ator, poeta e fotógrafo), Elizete Alves (advogada, atriz e educadora), Valter Pedrosa (poeta e escritor), Gilberto Alves, José Valter Ribeiro, Levi Alves Maciel. Há citação de um Padre que frequentava as Reuniões, porém a intenção era manter a neutralidade religiosa. Os jovens também não quiseram se ligar a Partido Político e candidatos ou políticos que se aproximaram, logo se distanciaram ao ver que era um Movimento puramente Cultural Artístico!

O popular Maromba, ativista da Política de Esquerda da época, participou do GRUCALP, porém quando foi preso em 1964, manteve sigilo sobre sua participação, embora assumindo ser do Partido Comunista. Ele preservou a equipe de jovens artistas e depois se afastou definitivamente do GRUCALP. Outros grucalpenses também fizeram o mesmo quando se envolveram nas enrascadas contra o Regime, afinal, Palmares sempre teve tradições culturais soberanas e preservar os valores artísticos sempre foi primordial em todas as Lutas.

A Cidade não tinha um Jornal. E criaram o JORNAL O OLHO, tipo “mural”, defronte à Livraria Costa, lá na Rua Vigário Bastos, onde atualmente é o prédio do BRADESCO. Era um sucesso! O povo ficava ansioso para ver as crônicas sobre os fatos da Semana ou do Dia. Uma correria para ver as crônicas escritas pelos jovens "do Grupo Cultural".

A Livraria era um ponto cultural importante. Sr. Odilo Costa era um livreiro arraigado às tradições culturais palmarenses. Era o lugar para onde os cidadãos que gostavam de ler se encontravam para confabular sobre assuntos literários e fatos da atualidade. Não faltavam curiosos por perto, ansiosos pelas novidades e para saber o que os intelectuais conversavam.

Até que um dia o Jornal O OLHO foi impresso em gráfica.
Semana da Pátria de 1969: GRUCALP defendeu Símbolo Nacional e foi acusado de subversivo!
Em 7 de Setembro de 1969, o Desfile Patriótico foi desorganizado. Não havia um percurso determinado pelo Governo e o Diretor do Ginásio Municipal fazia as próprias Leis. E na bagunça das Escolas se desencontrando, se se abalroando, o Ginásio Municipal imprensou o Grupo Escolar José Bezerra, derrubando crianças e até o aluno portando a Bandeira Nacional, José Orlando Henrique de Souza (ele foi Membro do GRUCALP, junto com o irmão José Henrique de Souza). A Bandeira Nacional foi pisada pelo “pelotão do Promotor Elefante”, como populares apelidaram Dr. Laércio Pacheco (também Diretor Interventor do Ginásio Municipal quando o Profº. Brivaldo Leão, Diretor do Educandário, foi preso em 1964).

O povo ficou revoltado. O Jornal O OLHO registrou e criticou as “autoridades locais” com as Matérias: ATITUDES DE UM CERTO PROMOTOR PÚBLICO (Bacharela Elizete Alves), PARECE MENTIRA, MAS É VERDADE (Telles Júnior), DEIXAI VIR A MIM AS CRIANCINHAS PORQUE DELAS É O REINO DOS CÉUS (Iolita Domingos), NÓS ACUSAMOS (Juarez Correia), AO DIA DA INDEPENDÊNCIA (Juarez Correia), DESFILES E DESFILANTES (Juarez Correia), ESCLARECIMENTO AO POVO (Elizete Alves).

O Promotor da Comarca ordenou recolhimento do Jornal para o Fórum dos Palmares. E denunciou os jovens escritores, enquadrados no AI-5.

Não demorou chegar o Radiograma No 149 do dia 12 de Setembro, enviado pelo Comando do IV Exército ordenando aprisionamento de Diretores do GRUCALP, autores das crônicas. Enviados para o Departamento da Ordem Política e Social, DOPS - Recife, acusados de agitadores e subversivos (Telles Júnior, Elizete Alves, Juarez Correia e Givanilton Mendes). Juarez Correia não foi detido logo porque era de menor, mas no dia que completou 18 anos de idade, uma Patrulha veio pegar o rapaz no seu “feliz aniversário”. Iolita Domingos também escreveu naquela ocasião, porém era de menor idade.

Elizabeth Gomes Teles (foto ao lado), esposa de Telles Júnior, “a Mãe Beth do GRUCALP”, articulou apoio local e portando cartas de defesas (do Bispo Dom Acácio Rodrigues Alves, do advogado Dr. Pedro Afonso de Medeiros; do Presidente da Associação Comercial dos Palmares, Professor Ivon Ferreira Lins, além de outros palmarenses), foi até ao DOPS – Recife e somente voltou com os “filhos grucalpenses” e o marido. Até o Tenente Coronel PM, Delegado de Polícia da época, testemunhou a favor dos jovens artistas, enviando Ofícios relatando o abuso de poder do Promotor Público e a sobre a bagunça desgovernativa municipal da época; contando como até o Pavilhão Nacional foi pisado por ordens do “Promotor Elefante”. Assim se expressou o Delegado: "I - Com o presente estou encaminhando a V. S. a Senhorita Dra. Elizete Alves dos Santos, os Senhores José Telles da Silva Júnior e Givanilton Mendes Barreto, na conformidade com vosso Radiograma No 149 do dia 12 do andante. II - Cumpre-me o dever, entretanto, de informar a V. S. que a referida Senhorita não é agitadora, pois mediante sindicância procedida por esta Delegacia, em meio conceituado desta cidade, não se constatou estar a mesma envolvida em agitação. Trata-se de uma moça formada em Direito, exerce advocacia no Foro desta Comarca, exercendo também o cargo de Professora em alguns Educandários desta Cidade, nunca foi dirigente de Classe, não consta do Arquivo desta Delegacia qualquer antecedentes que a comprometa, por conseguinte é de se supor que houve acusação infundada. III - Ocorre que no Dia da Pátria, 7 de Setembro, o Ginásio Municipal que tem como Diretor o Dr. Promotor Público desta Comarca, ao desfilar "dirigido" pelo seu Diretor por inprovidência "deste"imprensou o Grupo Escolar José Bezerra, que também desfilava, saindo várias crianças deste último com as vestes amarrotadas e a Bandeira Nacional jogada ao solo, houve protesto do público, inclusive da aludida Senhorita que tinha o dever de defender seus alunos que foram os mais atingidos. Quanto aos Senhores acima citados, também nada consta que os comprometam em agitação."...

E a História continua.

O OLHO continua aberto e ativo registrando os fatos e contando a História do nosso Povo!






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