terça-feira, outubro 18, 2016

Vitalino "Vida feita de Barro" e a Arte do Alto do Moura

ARTES

Há 43 anos, morria o mestre da escultura do barro, que somente tomou conhecimento do valor de sua obra pelo olhar do Outro I Homero Fonseca
Esta matéria faz parte da Revista CONTINENTE MULTICULTURAL Edição Especial /2006 Artista de Pernambuco - Poder das Formas e Cores

Na edição de 1° de fevereiro de 1963, a revista Time publicou uma página com a notícia da morte de um artista plástico brasileiro. Raramente um conterrâneo obteve tamanha deferência da prestigiosa publicação americana. Era o necrológo de Vitalino Pereira dos Santos, nascido num distrito de Caruaru em 10 de julho de 1909 e morto a 20 de janeira daquele ano. Mestre Vitalino não tinha consciência da dimensão da arte. Já era famoso mas levava a vida como uma brincadeira. No fundo, não compreendia muito hem o valor (financeiro e simbólico) daquilo que fazia com as mãos a partir do barro apanhado às margens do rio Ipo¡uca. Ele se considerava um artista, sim: um músico. Era no pífano - que tocava em festas, novenas, bares, quintais - que se realizava como artista. Ele tomou conhecimento da importância de sua obra através dos Outro: intelectuais, jornalistas, criticos, personalidades do mundo exterior ao seu.


Vitalino foi um tipco "artista popular. Nascido de urna família humilde, ligada à roça, aprendeu com a mãe, artesã de cerâmica utilitária, a manejara argila, dando forma a pequenos bichos, chamados loiça de brincadeira". Todo o sábado, ia com a mãe e os irmãos do Alto do Moura para a feira, então nas ruas do centro de Caruaru, e ganhava uns trocados vendendo seus bonecos. Logo evoluiu e passou a criar figuras e cenas do cotidiano rural nordestino, ganhando notoriedade a partir de sua "descoberta' pelo artista plástico e divulgador de arte Augusto Rodrigues.

Durante mais de quatro décadas, produziu milhares de peças abrangendo mais de 130 temas: animais (bois, cavalos, cachorros, onças, bodes, porcos), cangaceiros, bêbados, vaqueiros, lavradores, lobisomens, violeiros, o Diabo. E cenas que representam um formidável painel antropológico das comunidades interioranas do chamado "ciclo da vida" (nascimento, casamento, morte) a procissões, vaquejadas, lavradores na roça, brigas de foice, prisão de ladrões de galinha, retirantes da seca Já maduro, refletindo sua interação inevitável com o mundo urbano, retratou dentistas, advogados, fotógrafos em ação, cirurgiões operando, locutores de rádio. Foi um extraordinário cronista do cotidiano popular, modelando no burro os símbolos, valores, preconceitos e sentimentos da gente pobre do Nordeste.

Inicialmente, pintava suas peças com cores sóbrias e dramáticas, abandonando as tintas em sua fase final, quando as peças passaram a ostentar a cor natural do barro — alguns estudiosos consideram haver sido urna imposição do mercado, dos meios cultos empenhados em "preservar a pureza da arte popular. Antes e depois da fama, Vitalino era um homem do Agreste nordestino: analfabeto, devoto do padre Cícero, pai de seis filhos vivos, conversador cheio de verve, adepto da cachaça e de jogar sueca com amigos. Ingênuo e esperto, sempre bem-humorado (bom humor presente em muitas de suas esculturas), invariavelmente trajando paletó de brim, alpercatas de couro e chapéu, o bonequeiro emergiu do anonimato para a glória em 1947, quando a exposição Cerâmica Popular Pernambucana foi levada ao Rio de Janeiro por Augusto Rodrigues. O artista caiu no gosto das elites e, desde então, virou notícia na imprensa nacional e passou a ser atração turística na feira de Caruaru.


Em outubro de 1960, uma caravana de artistas populares pernambucanos, cujo maior expoente era o mestre da cerâmica, é levada ao Rio. Vitalino é levado aos salões chiques da antiga capital, participa de jantares e recepção em que foram leiloadas 16 de suas peças, confraterniza com Manuel Bandeira, Jorge Amado, Ivo Pitangui, Ari Barroso (o leiloeiro) e outras figuras, é apresentado a governador, prefeito, empresários e artistas, recebe condecoração, conhece o Maracanã, grava programa de televisão, visita a Embaixada dos Estados Unidos e a Academia Brasileira de Letras. Voltou para Caruaru trazendo na bagagem nenhum tostão e a gravação do seu único disco tocando pífano com banda na Rádio MEC, lançado em 1975 (Vitalino e sua Zabumba/MEC).

Depois disso, esteve em Brasília, onde tocou pífano em festas populares, participou de oficinas de cerâmica, visitou o Palácio do Planalto e concedeu entrevistas, e foi levado a São Paulo para um evento patrocinado por uma companhia de aviação. Três meses depois, morreu em sua modesta casa no Alto do Moura. Estava decadente, praticamente não produzia, limitando-se a assinar peças feitas pelos filhos, entregue ao alcoolismo.

O homem, cuja casa virou museu, que foi protagonista de documentário e de peça de teatro (Auto das 7 Luas de Barro, de Vital Santos), personagem de folheto (Biografia de Mestre Vitalino, de José Severino Cristóvão), tema de desfile de escola de samba do Rio (Império da Tijuca, 1977), cujas peças circularam pelos museus mais importantes da Europa e dos Estados Unidos e podem valer hoje até R$ 10.000,00, morreu de varíola, doença típica do subdesenvolvimento. Pobre (mas não miserável como insinuam as abordagens sentimentalistas), foi vítima da ignorância: recusou-se a receber cuidados médicos e foi entregue a um curandeiro. Quando a notícia de sua agonia chegou à cidade, o médico João Miranda acorreu à sua casa, mas era tarde demais. 
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